terça-feira, abril 21, 2026
22.4 C
Vitória
terça-feira, abril 21, 2026
terça-feira, abril 21, 2026

Leia Também:

Papo de RepórterHartung continua em campanha, agora com instituições e lideranças

Nerter Samora e Renata Oliveira

A disputa ao governo acabou, mas o governador eleito Paulo Hartung (PMDB) continua em intensa campanha para reeditar o arranjo da unanimidade. Papo de Repórter desta semana debate as dificuldades de se restabelecer o velho modelo político e institucional da Era Hartung (2003 a 2010).

Nerter – A corrida eleitoral acabou, mas essas duas semanas de pós-eleição continua movimentando o campo político. De um lado, o governador Renato Casagrande (PSB) tenta se recompor, se reafirmando como homem forte do PSB nacional. O PT tenta se reabilitar, mergulhando de cabeça na campanha ao segundo turno da presidente Dilma Rousseff. Na outra ponta está a intensa movimentação do governador eleito Paulo Hartung, que vem se aproximando de desafetos, visitando as instituições e colocando seus aliados para defender seu jeito de governar. Os últimos movimentos de Casagrande no governo e os primeiros de Paulo Hartung antes da posse dizem um pouco sobre como serão os próximos quatro anos, não é?

Renata – Diz muito. Depois das eleições, a classe política ficou nitidamente perdida entre manter a governabilidade de Casagrande até o fim do governo ou se alinhar logo ao governador eleito, temendo as represálias do jeito Hartung de governar, esmagando a oposição e barganhando com os aliados, o que pode ter reflexo no futuro político de muita gente no Estado. O primeiro sintoma desse desentendimento foi sentido na Assembleia. O que os aliados de Hartung chamam de “legítimo” e “democrático”, não se tem precedente na história recente do Estado, o desprestígio que metade do plenário tem dispensado ao governador em seu final de mandato assusta.

Nerter – E não é só isso. A ingerência do Poder Judiciário, que a pedido da Associação de Magistrados do Espírito Santo (Amages) suspendeu os efeitos da Lei Orçamentária de 2015 é outro feito que chama a atenção da classe política. O novo governador ainda não sabe com qual orçamento vai iniciar seu mandato…

Renata – Ou poderá criar seu próprio orçamento, ficando livre das amarras do antigo. Lembrando que Hartung criticou o aumento dos gastos do Estado, gastos esses na estrutura do governo, com contratação de pessoal e melhoria dos aparelhos públicos.

Nerter – Não é de hoje que o governador eleito tenta montar o seu próprio orçamento. Em 2003, ele fez o mesmo com a lei orçamentária deixada pelo antecessor. Ele não se cansava de repetir que o “orçamento da época era uma peça de ficção”. Agora retornando aos tempos atuais, a Assembleia recorreu da liminar na Justiça Estadual e o Palácio Anchieta encurtou a conversa e foi direto ao Supremo Tribunal Federal. Mesmo assim, a solução deve vir de um acordo, que passa pela ampliação do Poder Judiciário. Nem é preciso ter bola de cristal para prever esse desfecho. Mas voltando à crise de identidade dos deputados estaduais, algumas figuras se destacaram, não é? Theodorico Ferraço (DEM), dizendo que é independente e apagando incêndio do governador eleito no plenário; Paulo Roberto (PMDB), o líder sem voto de um governo que nem começou ainda; Euclério Sampaio (PDT), o deputado contra tudo e contra todos, mas que muda de opinião no meio da confusão; e Elcio Alvares (DEM), o ex-líder do governo que só agora viu coisa errada nos projetos para os quais pediu votação.

Renata – Com o foco da imprensa nas sessões-relâmpago da Assembleia, Hartung aproveitou para fazer visitas às instituições que em seus governos passados foram parceiras. Foi ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), ao Tribunal de Justiça e  de Contas de forma bem discreta, quase invisível. Mas quando a imprensa noticiou sua ida a Assembleia a coisa ferveu. Aquele seria um teste, mas Hartung preferiu evitar se jogar no olho do furacão, com deputados e servidores públicos com os nervos à flor da pele. Foi em um dia tranquilo (na última quinta, 16) sem a presença dos insatisfeitos do plenário e longe da pressão dos manifestantes das galerias. O momento era só para amigos. E lá estavam Euclério e Paulo Roberto e cia.

Nerter – Se o Hartung está tentando reunir novamente o arranjo institucional, a coisa vai ser mais complicada. Visita de cortesia se faz depois da posse. Hartung sequer foi diplomado e já está dando ordens nos projetos do governador atual, tanto que os deputados se comprometeram no encontro a aprovar só o que não tem impacto financeiro; está pedindo parceria ao TJES, ao TCES, ao TRE. Só que desta vez, ele não tem aquele clima de guerra ao crime organizado de 2003 e nem todo mundo está disposto a entrar nesse jogo. Por isso a estratégia dele precisa ser diferente.  

Renata – Sim, um exemplo claro disso é a entrevista “exclusiva” à rádio do senador Magno Malta (PR). Hartung deixa claro que neste novo arranjo pretende se aproximar de alguns antogos desafetos, quer conquistar as lideranças políticas e colocá-las ao seu lado, deixando do outro lado aquelas que ele certamente vai dedicar algumas horas de seu dia. É claro que não basta vencer Renato Casagrande nas urnas, ele e seus principais apoiadores agora são os agentes da “velha política”, o novo inimigo invisível de Hartung. Desses, Hartung não tem interesse em se aproximar. Não vai fazer as pazes. A esses cabe inventar um jeito de se credenciarem como oposição ou serão jantados logo, logo.

Nerter – Neste sentido, Casagrande deu um passo importante essa semana. É hora de ele se reerguer e nada melhor do que buscar o apoio do espaço político onde sempre teve força: o PSB nacional. O partido está em frangalhos depois da morte de seu principal líder, a aposta errada em Marina Silva e a derrota nas disputas estaduais. Mas Casagrande se manteve na secretaria-geral, se consolidando como o segundo na hierarquia do partido. Isso é importante, ele precisa se reerguer depois do revés das urnas e se preparar para a retomar a batalha contra Hartung. Disse que está disposto a apontar os erros da atual gestão e isso seria muito importante para a democracia no Espírito Santo.

Renata – Principalmente se a Assembleia mantiver essa postura nefasta e antidemocrática de submissão ao Executivo que ensaia fazer neste momento. A esperança é que a chegada dos novatos possa dar um novo fôlego à Assembleia. Alguns veteranos também já tem maturidade para perceber que atitudes como essas tirou metade do plenário e que repensem suas funções, sabendo que quem está na cadeira de governador é um homem público como outro qualquer, que deve ser fiscalizado e cobrado pelos parlamentares e pela opinião pública.

Nerter – O recado das urnas já foi dado!

Mais Lidas