terça-feira, abril 21, 2026
20.2 C
Vitória
terça-feira, abril 21, 2026
terça-feira, abril 21, 2026

Leia Também:

Papo de RepórterO perde e ganha da disputa eleitoral de 2014 no Estado

Nerter Samora e Renata Oliveira

O ex-governador Paulo Hartung (PMDB), agora governador eleito, começa a recriar seu grupo de apoio visando a recompor a unanimidade no Estado. Já o governador Renato Casagrande (PSB) tenta reunir a oposição. Papo de Repórter discute o perde e ganha das eleições deste ano no Estado.

Nerter – Terminado o processo eleitoral no Espírito Santo é hora de as lideranças políticas do Estado refletirem sobre seus posicionamentos para os próximos quatros anos. Muita gente disputou a eleição já de olho no pleito de 2016. No entanto, os principais atores políticos desse processo eleitoral já têm suas posições bem definidas e começam a emitir sinais de como vão se movimentar neste novo cenário político. Vamos começar falar do vencedor das eleições: Hartung saiu do pleito vitorioso, mas inaugurou a dinâmica do “ganhou perdendo”. Ele teve uma disputa dura com Casagrande. Durante a acirrada campanha muitos esqueletos “escaparam” do armário de Hartung. De uma forma ou outra, o peemedebista vai carregar as marcas, quem sabe até as cicatrizes, do processo eleitoral. Esse Hartung volta muito diferente daquele que tomou posse em 2003, reivindicando o papel de “salvador da pátria”. Já Casagrande não tem tantas opções assim. Sem condições de recompor sua aliança com Hartung, que já esboça a tentativa de reconstruir aquela unanimidade de antes, restou ao socialista a tentativa de reunir as forças descontentes com Hartung, que não são poucas, para formar um grupo independente.

Renata – Isso, a princípio, me pareceu difícil, mas hoje vejo que não será tão complicado assim. Casagrande não vai ficar pregando no deserto como achei. Há integrantes do antigo arranjo institucional, dizendo que desta vez não vai ser bem assim. Mas Hartung já mostra a que veio. Ao seu lado vai querer apenas aqueles aliados que o acompanham há muito tempo. Ele que tanto acusou Casagrande de colocar na equipe os amigos, continua fazendo política de grupo, contemplando apenas os aliados mais próximos, de confiança. Como disse Cazuza, sua equipe será um “museu de grandes novidades”, o que nos leva a supor que o governo novo não será diferente dos dois governos de Hartung, com pouca ação na área social, muito incentivo ao empresariado, opressão da classe política e ataques indiretos aos “inimigos” do governo soberano.

Nerter – Isso é o que ele está tentando fazer e provavelmente deve conseguir arregimentar um bom número de apoios. Uma vez que o fato de ele não ter conseguido maioria na Assembleia Legislativa e na bancada federal não significa que ele terá um grupo de oposição no seu encalço. Longe disso, aliás. Basta recorrer aos oito anos de gestão Hartung para saber que a Assembleia é o elo mais frágil do arranjo institucional. Mas não espere um bom tempo logo de cara. O governador eleito sabe bem trabalhar com a barganha com cargos e atendimento às bases dos deputados. No entanto, ele já perdeu aquele poder de amedrontar a classe política…

Renata – As acusações dos gastos com passagens aéreas pela ex e agora futura primeira-dama, a mansão secreta em Pedra Azul que o digam…

Nerter – Isso é verdade. Já os deputados federais, ou pelo menos uma parte deles, estão de olho nas disputas municipais de 2016. Agora pegando esse gancho das denúncias. Desta vez, Hartung não terá o grande trunfo que o manteve intocado durante os seus dois mandatos. Não dá mais para ele usar o subterfúgio do combate ao crime organizado. Ele está tentando colocar essa história de “velha política” como se fosse seu novo inimigo, mas acho muito difícil ele conseguir se fazer em cima disso, até porque, como dito anteriormente, ele não está acima do bem e do mal.

Renata – E outra, hoje o cenário político é diferente, o ambiente é outro. Há um clamor popular não pelo combate ao crime organizado, mas ao atendimento de demandas sociais. Se passados seis meses de seu governo Hartung não apresentar respostas a essas demandas, será cobrado como qualquer outro gestor. Há ainda uma outra questão muito importante a se discutir. Hartung anda dizendo nos jornais que no momento mais difícil de Aécio esteve ao lado do presidenciável tucano. Aécio já mandou dizer que sabia muito bem quem estava com ele e quem não estava. Chegou a cancelar uma vinda a Vitória, irritado pelo fato de Hartung ter abandonado o presidenciável naquele momento em que o tucano estava em queda. Se Aécio vencer a eleição, Hartung terá de acertar contas com o presidente tucano. Se Dilma vencer, bom, acho que não precisa nem desenvolver a ideia, não é?

Nerter – Aliás, isso nos leva a uma outra discussão. E o PT, como fica neste cenário pós-eleição?

Renata – Vai pegar a senha e entrar na fila de cargos do novo governo. Coser terá de se sentar à mesa de negociação com uma postura totalmente diferente. Se quando estava bem não conseguiu muita coisa, imagina agora, desgastado!

Nerter – Cada vez mais o comando do PT se mostra satisfeito com o papel de força auxiliar, vivendo da manutenção dos cargos que contemplam algumas lideranças. Esse caminho de volta às origens do partido parece cada vez mais distante. Resta à militância do PT se unir aos descontentes na tentativa de construir um verdadeiro projeto para o partido no Estado. Caso contrário, a consolidação do modelo de “peemedebização” do PT capixaba será fulminante…

Renata – E daqui a dois anos haverá a disputa municipal. Seus dois principais prefeitos estão em segundo mandato e seus possíveis sucessores não foram exatamente um sucesso nas urnas. Casteglione em Cachoeiro deve apostar em Rodrigo Coelho (PT), que foi o segundo mais bem votado no município, mas com uma distância enorme de Theodorico Ferraço (DEM). Em Colatina, o sucessor de Leonardo Deptulski deve ser Genivaldo Lievore, que não se reelegeu para a Assembleia Legislativa e ainda viu outras lideranças colatinenses como Sergio Meneguelli (PMDB) e Cirilo de Tarso (PCdoB) ganharem peso político no município. Quem está mais próximo da eleição e Helder Salomão, em Cariacica. Se nenhum fenômeno acontecer até lá. Mas será que o deputado federal eleito pode conduzir o PT neste caminho de reconstrução? Ele não parece ter esse perfil de grande líder político do partido.

Nerter – Por outro lado, quem conseguiu ter um desempenho até surpreendente foi o PSDB. A quantidade de bobagens que o partido fez no período pré-eleitoral e a forma como saiu derrotado de 2012, ganhando apenas seis prefeituras, metade do que tinha em 2008, e perdendo em Vitória da forma dura como foi, não trazia aos meios políticos a leitura de que o partido teria um bom desempenho em 2014. Mas os tucanos mantiveram sua cadeira na Câmara e elegeram dois deputados estaduais, uma eleição boa para quem em 2010 não conseguiu sequer representação no Legislativo estadual.

Renata – É, mas vamos ver até onde vai esse crescimento do PSDB. O partido não conseguiu o espaço que tem por questão partidária, mas pelo fato de seu presidente Cesar Colnago, vice de Hartung, ser um fiel aliado do governador eleito. E a negociação ali será apenas para os aliados, não vai beneficiar gente de fora, como 'é caso dos tucanos Luiz Paulo Vellozo Lucas, que há tempos não é mais do grupo de Hartung, e muito menos Max Filho, que terá um peso muito grande na eleição de 2016 em Vila Velha, município que hoje é administrada pelo aliado de Hartung, Rodney Miranda DEM).

Nerter – Por isso mesmo cabe a possibilidade de Renato Casagrande conquistar os insatisfeitos com as manobras de Hartung. Vale lembrar que o peemedebista soube no momento pré-eleitoral se unir aos opositores da maioria dos prefeitos do Estado que,  declararam apoio a Casagrande e foram sumariamente derrotados nas urnas. Se ele repetir o desempenho, pode vislumbrar um caminho. Resta saber quais serão os futuros parceiros do socialista. Casagrande tem condições e já disse que vai fazer o contraponto. Vai apontar as falhas do novo governo, abrindo espaço para a crítica. Talvez seja a única possibilidade de equilibrar esse jogo político.

Mais Lidas