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Papo de RepórterUm governo de ‘miragem’ que precisa ser passado a limpo

Rogério Medeiros e Nerter Samora

Papo de Repórter desta semana entra no clima da disputa para o governo do Estado, que promete ser disputada palmo a palmo em busca dos votos dos eleitores indecisos. Que vamos ter eleições, ninguém duvida. A pesquisa Brand/Século Diário – publicada nessa quinta-feira (31) – revelou que há todas as condições para a a eleição deste ano a governador ser disputada. Mas qual será a chave para a reeleição de Casagrande ante o favorito Hartung? Os jornalistas Rogério Medeiros e Nerter Samora fazem um painel do momento político do Estado e mostram que a disputa está nas mãos do governador. Será governo de Paulo Hartung, finalmente,será passado a limpo?

Nerter – Não há nada de diferente na política local, com exceção da pesquisa eleitoral publicada pelo jornal Século Diário/Brand. O levantamento surge num momento em que o ramo era dividido por apenas dois institutos de pesquisa: Futura e Enquet, ligados aos dois principais jornalões impressos do Estado. Na verdade, foi uma surpresa geral que Século Diário pudesse trazer ao centro político um instituto do interior – nascido em Colatina –, com oito anos de existência e um nível de acerto impressionante. E logo de cara, na primeira pesquisa de uma série que será divulgada ao longo do período eleitoral, o resultado foi bem claro: a eleição não está ganha, porém, o ex-governador Paulo Hartung tem vantagem sobre Casagrande e hoje é o favorito.

Rogério – Claro que é favorito. A eleição mal começou e ele já era o ganhador, de acordo com o Futura e com a imprensa hartunguete. Isso é somado ao temor que os políticos do Estado têm dele. Então hoje você tem outra situação. Nós entendemos, outros entenderam e é necessário que o Renato também entenda que não dá para ficar com esse discurso desproporcional de apenas mostrar o governo dele. Enquanto ele tem que mostrar, na verdade, as mazelas do governo Paulo Hartung,

Nerter – Não precisa se esforçar muito. Nas semanas anteriores já havíamos falado aqui no Papo de Repórter sobre alguns desses episódios, como o caso do apartamento em Vila Velha, o posto fiscal que “sumiu” com R$ 25 milhões, a compra e venda áreas em Presidente Kennedy… Nessa quinta-feira (31) surgiu mais um caso: a denúncia de superfaturamento nas obras de reforma do Hospital Central. Aliás, essa não é uma denúncia nova, muito menos vazia.

Rogério – Ela é uma realidade do Paulo, que fez grande parte das obras de seu governo sem licitação. Ele é tão inalcançável que fez essas roubalheiras toda a luz do dia. Não é só isso. Veja que o Paulo em oito anos criou pouco no seu governo. Repôs pouco mais de 300 soldados na PM, não admitiu ninguém na Polícia Civil, apesar dos concursados que aguardavam na fila, enquanto a situação da violência no Estado atingiu patamares de guerra civil. Agora mesmo, fica esse rapaz que virou pau mandado dele, que foi secretário de Educação dele [Haroldo Correa], posando de grande mestre da economia. Ele foi secretário e registrou o menor índice de novas matrículas na rede estadual de ensino. Esse povo pensa que o capixaba é besta. Eles escondem isso.

Nerter – Todos esses são problemas que batem na porta do governador Renato Casagrande nessa eleição. A segurança pública deve ser responsável por uma fatia significativa do debate…

Rogério – Eu diria, com toda convicção, que o governo do Paulo foi uma miragem. Ele fica falando que salvou o Espírito Santo, fala de forma genérica. Manda ele dizer quantos soldados ele fez, quantos policiais civis foram admitidos, quantas matriculas fez na rede escolar. É tudo uma miragem e o Renato ajudando ele, posando de perdedor.

Nerter – Nesse primeiro momento, o Renato parece que vai investir nesse discurso da comparação…

Rogério – Mas ele não soube nem comparar! O Renato aturdido com as pesquisas do Futura fazia o seu governo ser submisso ao governo do Paulo, sem contar as rasteiras que o Paulo deu nele. Simples, é só você olhar o seguinte: o Casagrande confiar em Ricardo Ferraço? Que isso, o senador só foi para o lado do Casagrande porque fazia de um projeto para mostrar na hora que faltasse gás para dizer que o Paulo salvou o Estado para expor ao povo que ele continuava ali. Era uma estratégia de destruição da candidatura do Renato. Tudo fazia parte de um projeto, tanto é que naquele momento que havia maioria no PMDB contra a candidatura de Paulo Hartung e alguém tinha que liderar, eles chamaram o Ricardo Ferraço, que deixou o povo falando sozinho. O Ricardo é uma contradição. O Paulo é capaz de fazer situações tão deprimentes para determinados aliados dele, como essa do Ricardo. Enquanto ele tem a trajetória dessa ordem no Espírito Santo, ele é um bom senador em Brasília. O motivo? É porque até agora se manteve longe de Paulo Hartung.

Nerter – E o que dizer então do ex-deputado federal Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB)? A declaração do Paulo sobre o tucano, na festa de lançamento do deputado federal dele, é de constranger qualquer um. “Ele chuta minha canela, mas depois volta”, O que dizer disso?

Rogério – Veja o seguinte: com o Luiz Paulo é bastante diferente. O Ricardo teve um mandato de deputado estadual e de federal modestíssimos, mas é um bom senador. Já o Luiz Paulo sempre foi muito preparado, seja na formação política, intelectual e moral. Muito acima de Paulo Hartung. Quer dizer, eu diria sem medo de errar que o Luiz Paulo é desta atual colheita de capixabas o mais preparado para ser o governador do Espírito Santo. No entanto, ele abre mão de tudo, do aspecto ético, politicamente falando, em favor de Paulo Hartung. É impressionante isso. Às vezes acho que Mariazinha Lucas [conselheira aposentado do Tribunal de Contas e mãe de Luiz Paulo] não deu as palmadas que ele merecia quando criança.

Ainda sobre o Luiz Paulo, Hartung o deixou numa situação adversa. Se o tucano tivesse ido com Renato, provavelmente seria senador. Agora tem que disputar uma vaga para deputado federal, chegando tarde para disputa. Ele não tem nem tesão político para isso. Deputado federal está abaixo das perspectivas dele. E o campo está relativamente ocupado, o que pode resultar em mais uma derrota para a coleção do tucano. Imagina o que ele está arranjando. Como o Espírito Santo pobre de homens públicos corre o risco de perder um quadro desse porte? Eu já encontrei pessoas que louvam ele como uma quadro político excepcional, mas que não votam mais nele. Porque essa não é a primeira vez que o Paulo faz isso com ele. Não é a primeira, nem segunda, nem terceira, nem quarta… Ele sempre faz isso com ele. O Paulo faz isso porque sabe o potencial do Luiz Paulo, que é bem maior que o dele.

Nerter – Agora voltando a falar das eleições para o governo. As chances de um segundo turno ficam bem claras. Vai depender do desempenho do Renato na campanha, mais do que Paulo. Além disso, tem uma figura que entendo como o fiel da balança nessa disputa, o deputado estadual Roberto Carlos (PT) que assumiu o palanque tampão do PT. Até mesmo a presidente Dilma Rousseff está competindo, está indo melhor do que na eleição passada em que se elegeu…

Rogério – Sim, e o ex-prefeito de Vitória João Coser (PT) vai estar aonde? Com ele ou Paulo Hartung? Se você não sabe, ele está com Paulo Hartung. Ou Roberto Carlos é um ingênuo nesta história ou está dentro do jogo? Eu prefiro acreditar que ele é ingênuo. Nerter, essa eleição depende fundamentalmente de acabar com essa miragem do Paulo Hartung que salvou o Estado, mas que não salvou nada. O governo dele foi voltado para o enriquecimento das elites capixabas. Aliás, eu quero que você explique que ele estava corrigindo a declaração de bens. Você acreditou?

Nerter – Nem eu nem um monte gente. O que me impressiona é que oito anos depois, o Paulo tenha perdido patrimônio. Para um ex-governador que chegou a aparecer no grupo dos milionários na época de seu governo e hoje perde patrimônio tudo soa muito estranho. Mas quem tem a palavra é a Justiça Eleitoral…

Rogério – Você acha que o Álvaro Bourguignon [presidente do TRE] vai deixar acontecer alguma coisa com o Paulo? Não vai. Eu acho estranha essa história do Judiciário e a influencia do Paulo que arma e desarma situações contra adversários e aliados. De vez em quando ele toma bolas nas costas porque tem promotor de saco cheio do Ministério Público proteger ele, como essa denúncia do hospital…

Nerter – E o momento é propicio porque entramos de fato no período eleitoral. Não é mais aquele período em que essas denúncias eram abafadas pela imprensa. Existia o fato, existia a corrupção, mas não ganhavam os contornos de escândalo porque não aparecia na mídia. Agora não, esses fatos não só aparecem, mas como também vão se multiplicando, ganham a massa. Será que isso mexe nessa disputa?

Rogério – Eu acho que a eleição depende de lidar com essa miragem que se chama Paulo Hartung.

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