Manifestação do movimento LGBTI+ acontecerá em Cariacica após um mês do crime

O movimento LGBTI+ organizado no Espírito Santo convocou um ato público para o próximo sábado (9), em Cariacica, com o objetivo de cobrar a expulsão de policiais militares envolvidos no assassinato de um casal de mulheres lésbicas ocorrido há um mês no bairro Cruzeiro do Sul. A manifestação será realizada na Praça Monsenhor Rômulo Neves Balestrero, em Campo Grande, entre 9h e 11h30, e busca pressionar autoridades por respostas concretas diante do que os organizadores classificam como mais um episódio de violência institucional e LGBTfobia.
A mobilização é articulada por coletivos como o CORES, TransEncruzilhadas e fóruns LGBTI+ da Grande Vitória, além de militantes de partidos políticos. Na convocação, os organizadores afirmam que o ato é um grito por “justiça pela memória das vítimas”. “É pelo nosso direito à vida, ao amor e à liberdade”, reforça a convocação.
O caso que motivou o protesto ocorreu no dia 8 de abril, quando, segundo relatos reunidos pelo movimento, uma discussão entre vizinhas terminou com a execução de Francisca e Daniele. De acordo com a denúncia, o policial militar Luiz Gustavo Xavier do Vale, que não estava em serviço operacional naquele momento, foi até o local acompanhado de outros agentes e atirou contra as duas mulheres.
“Atirou à queima-roupa contra Francisca e Daniele — desarmadas, sentadas na calçada, sem representar risco algum”, diz a nota. Ainda conforme o texto, sete outros policiais teriam presenciado a ação sem intervir. “Foram, sem remorso algum, executor e expectadores de um crime brutal”, afirma o movimento, em comunicado nas redes sociais em que aponta a suposta lentidão na apuração dos fatos pela corregedoria da Polícia Militar do Estado (PMES).
O histórico do policial acusado também é citado como elemento central da denúncia. Segundo os organizadores, Luiz Gustavo já teria se envolvido em outros episódios de agressões em abordagens anteriores e o assassinato de uma pessoas trans em 2022. Ele foi responsável por atirar contra uma travesti conhecida por Lara Croft, no bairro Alto Lage, também em Cariacica.
Na época, a versão apresentada foi de que a vítima teria tentado atacar os agentes com um barbeador. Moradores da região, no entanto, contestaram e afirmaram que a abordagem foi violenta e sem justificativa. O caso foi denunciado ao Ministério Público Estadual (MPES) e segue em tramitação na Justiça, sem desfecho até o momento. Para o movimento, a permanência dele na corporação evidencia falhas estruturais.
“A corporação não pode mais abrigar cidadãos com preconceitos e visões de mundo distorcidas, capazes de levar à morte de um casal”, diz o texto. O ato do dia 9 foi marcado propositalmente para ocorrer um mês após o crime, como forma de reforçar a memória das vítimas e denunciar a demora por respostas.
O Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros no Espírito Santo (Fonatrans-ES) também afirmou que a reincidência evidencia falhas estruturais no acompanhamento desses militares e apontou para uma negligência institucional que pode ter consequências fatais. A atuação das forças de segurança no Espírito Santo é vista pelo movimento como marcada por contradições. Apesar de avanços pontuais em protocolos e investigações, persistem denúncias de abusos, especialmente contra travestis e mulheres trans.
“A data foi escolhida não por um novo acontecimento, mas pelo simbolismo de ser exatamente um mês depois do crime. Essa articulação com outros movimentos é justamente para não deixar que a memória desse crime se perca”, explica o militante João Pedro Rigoni, do Coletivo Cores.
João Pedro avalia que o assassinato não pode ser visto como um fato isolado, mas como parte de um contexto mais amplo de aumento da violência e da LGBTfobia. “Esse assassinato pode ser visto dentro de três perspectivas: o aumento da LGBTfobia, falhas nas corporações e um ambiente onde muitos agentes reproduzem visões machistas e violentas”, destaca.
Ele também questiona a efetividade das medidas adotadas até agora. Embora os policiais envolvidos tenham sido afastados, o militante defende punições mais rigorosas. “A gente quer que eles sejam responsabilizados e que paguem pelo crime. É inadmissível que policiais que participaram ou assistiram isso continuem recebendo dinheiro público”, afirmou.
Na nota, o movimento amplia as críticas à atuação da Polícia Militar no Estado e cita outros casos de violência, como a morte de um jovem jogado da Segunda Ponte em 2025 e de um homem assassinado após se render em 2022. Para os organizadores, há um padrão de letalidade policial que precisa ser enfrentado.
“O Espírito Santo assiste a um salto preocupante na truculência e na letalidade policial”, diz o texto, que relaciona o cenário ao fortalecimento de discursos que legitimam a violência sob o argumento da segurança pública. O movimento também critica a atuação de autoridades e representantes políticos, apontando omissão diante de casos de violência contra pessoas LGBTI+. “Agem como se nós não estivéssemos aqui e, quando aparecemos como vítimas, não somos relevantes”, afirma a nota.
Além da responsabilização criminal, os organizadores defendem mudanças estruturais, como a reformulação da Polícia Militar e a ampliação de políticas públicas voltadas à população LGBTI+. Entre as pautas também estão a aprovação de legislações contra a misoginia e medidas para combater discursos de ódio. A mobilização nas ruas é uma forma de pressionar o Estado e afirmar a resistência do movimento.
“Se for para ir para a rua, pedir justiça, denunciar a injustiça e cobrar respostas, a gente vai. A gente não vai aceitar esse tipo de desrespeito com nossos corpos”, afirma João Pedro.

