Fechamento de agências e retirada de direitos estão entre os pontos de protesto da categoria

Trabalhadores dos Correios no Espírito Santo se preparam para uma paralisação nacional de 24 horas marcada para o próximo dia 7, em protesto contra o fechamento de agências, a retirada de direitos e mudanças na estrutura da empresa que, segundo a categoria, aproximam a estatal de uma lógica voltada ao lucro. O movimento foi aprovado pela Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos e Similares (Fentect) e ganhou força após um ato realizado no último dia 19, em frente à Agência Central dos Correios, no Centro de Vitória.
Segundo o dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Correios, Prestadoras de Serviços Postais, Telegráficos e Similares do Espírito Santo (Sintect-ES), Antônio Braga, a principal preocupação da categoria é o plano de fechamento de até mil agências em todo o país. Ele aponta que os efeitos da reestruturação já começaram a ser sentidos no Espírito Santo.

Uma unidade dos Correios no Centro de Vitória foi fechada recentemente e outras três agências estão na lista para encerramento. Entre elas, estão unidades localizadas em Itaipava, distrito de Itapemirim, no sul, e na região de Cariacica Sede.
O sindicalista avalia que a redução da rede de atendimento afetará diretamente a população. Em Itaipava, moradores poderão precisar se deslocar para outros municípios para acessar serviços postais. “Vai ser uma região que vai ficar sem Correios. Vai ter que ir para Itapemirim ou Marataízes para ser atendido”, disse. Em Cariacica, os usuários devem ser direcionados para a agência de Campo Grande.
As mudanças não se limitam às agências. Braga destaca que centros de distribuição também vêm sendo fechados e unificados. Ele relata que a unidade onde trabalhava foi incorporada a outra estrutura e que a concentração das operações já alterou a rotina dos empregados. De acordo com o dirigente, Vitória chegou a contar com três centros de distribuição e hoje opera com uma estrutura reduzida, com apenas um.
Na avaliação do sindicato, o fechamento de unidades integra um processo mais amplo de enxugamento da empresa. A entidade aponta que aposentadorias e programas de desligamento reduziram o número de trabalhadores sem que houvesse reposição equivalente por meio de concurso público. O último concurso dos Correios foi realizado em 2011. Desde então, aponta a categoria, perdeu-se parte significativa do quadro funcional. No Espírito Santo, o sindicato estima que existam atualmente menos de dois mil empregados. “Só tem gente saindo e não tem ninguém entrando. Mas a cobrança aumenta”, afirmou a liderança.
Ele acrescenta que a redução do efetivo tem ampliado as áreas atendidas pelos carteiros e aumentado a sobrecarga de trabalho. “O distrito do carteiro acaba ficando cada vez maior”, relatou. A situação tem contribuído para o adoecimento dos trabalhadores, observa, mas quando um empregado se afasta ou deixa a empresa, as atividades são redistribuídas entre os colegas que permanecem em serviço. “Quando alguém fica doente ou alguém sai, não entra ninguém no lugar. Mas alguém tem que fazer essa entrega”, disse.
Outra mudança criticada pela categoria é a Distribuição Domiciliar Alternada (DDA), modelo que reduz a frequência de entregas em determinadas localidades. “Antes o carteiro passava diariamente em todas as ruas da região onde ele atua. Agora não mais. Os Correios estabeleceram que devem passar em dias alternados”, afirmou. Para o dirigente sindical, medidas desse tipo afetam a percepção da população sobre o trabalho realizado pelos empregados. “As pessoas ficam achando que o carteiro é preguiçoso, não quer trabalhar”, lamentou.
Os trabalhadores também contestam a possibilidade de retirada de gratificações como o Adicional de Atividade de Agência (AAG) e o quebra de caixa pago aos atendentes. Segundo Braga, a medida faz parte de uma estratégia de redução de despesas. “A gestão inventa outras formas de precarizar o trabalho para poder enxugar os custos”, afirmou.
A mobilização também recupera um debate que ganhou força durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em 2021, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 591/2021, que autorizava a exploração dos serviços postais pela iniciativa privada e estabelecia condições para a privatização da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). O texto, entretanto, não avançou no Senado.
Embora a proposta tenha sido arquivada na prática, Antônio Braga avalia que mudanças implementadas nos últimos anos seguem uma lógica semelhante à defendida durante a tramitação do projeto. “A gente entende que a abertura de capital é uma forma de disfarçar a privatização”, pontua. O dirigente argumenta que uma empresa pública deve priorizar a universalização do serviço, inclusive em localidades que não geram retorno financeiro. “Os Correios estão indo na contramão do que a gente sempre defendeu para a empresa, que é ser pública, de qualidade, e garantir direitos para todos os cidadãos”, declarou.
O fechamento de agências, avalia, demonstra uma mudança de orientação dentro da empresa. A categoria defende que a estatal mantenha sua presença em todos os municípios brasileiros, independentemente da rentabilidade das operações. Para os trabalhadores, esse modelo diferencia os Correios de empresas privadas de logística e garante acesso da população a serviços considerados essenciais.
Enquanto as negociações nacionais prosseguem, os sindicatos pressionam pela suspensão dos fechamentos, pela manutenção das gratificações e pela abertura de diálogo com a direção da empresa. “Vai impactar todo mundo. Indiretamente ou diretamente, vai impactar todo mundo”, alerta a liderança sobre a greve.

