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Após negativas, PMV agora admite falhas no monitoramento das praias

Gestão da Capital foi confrontada por vários estudos que apontaram contaminação elevada

Cesan

As análises conduzidas pelo grupo de trabalho (GT) criado pelo Ministério Público do Estado (MPES) para acompanhar a situação das praias da Guarderia e Ilha do Frade confirmaram problemas já apontados por laudos independentes encomendados pelos vereadores de Vitória, Pedro Trés e Bruno Malias, ambos do PSB, que apontaram contaminação 40 vezes mais alta em trechos das praias da Guarderia e da Ilha do Frade. Após meses questionando as denúncias e os resultados, a Prefeitura de Vitória agora admite falhas no monitoramento da balneabilidade e a necessidade de rever procedimentos.

A informação é do vereador Pedro Trés, ecoada de reunião realizada nessa segunda-feira (18) pelo GT. Segundo ele, na ocasião, representantes da prefeitura reconheceram que a gestão “é parte do problema” e afirmaram que “vão acompanhar o caso e discutir soluções de médio e longo prazo” para a recuperação da qualidade das águas. “Se eles estavam desde o início do processo negando o problema, inclusive suscitando questionamentos até ao trabalho que nós fizemos lá inicialmente, agora a conversa mudou. Eles deixaram de negar”, reforçou.

Entre as evidências abordadas durante as reuniões, Pedro Trés destaca que a Prefeitura de Vitória não realizava integralmente os testes previstos pelas resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) para o monitoramento da qualidade da água em ambientes salobros e salinos. “Isso ficou evidente ao longo desse processo”, apontou.

O vereador informou, ainda, que representantes da prefeitura apontaram a necessidade de atuação conjunta para enfrentar o problema ambiental na orla, defendendo que a questão envolveria fatores metropolitanos e não apenas situações restritas à Capital. Ainda assim, acrescentou, houve sinalização de que o município pretende adotar medidas voltadas à resolução dos problemas identificados na orla. “A prefeitura mudou de posição. Bastou reconhecer que os primeiros laudos estavam certos e eles erraram, que agora vão trabalhar para resolver o problema”, reiterou.

O GT conduzido pelo Ministério Público investiga as causas da contaminação na orla da Capital e discute medidas relacionadas à drenagem, ao monitoramento da qualidade da água e aos riscos ambientais e sanitários associados ao despejo irregular de efluentes no mar. A criação do colegiado ocorreu após a repercussão da situação da água e dos laudos independentes, que motivaram ainda requerimentos de informação apresentados na Câmara de Vitória e encaminhados a órgãos de controle, incluindo o Ministério Público e o Tribunal de Contas do Espírito Santo (TCES).

A atuação dos órgãos ocorreu em duas frentes paralelas. O Tribunal de Contas instaurou fiscalização própria e notificou gestores municipais, técnicos ambientais e responsáveis por obras de drenagem na região da Praia do Canto. Em decisão expedida em abril, a Corte considerou que os dados de balneabilidade divulgados pela prefeitura não atendiam integralmente às resoluções do Conama, por não contemplarem adequadamente indicadores microbiológicos considerados essenciais para aferir contaminação fecal.

Já o Ministério Público organizou um processo contínuo de monitoramento e discussão técnica envolvendo diferentes instituições para impor providências à mancha escura e ao forte odor registrados na região da Guarderia e Ilha do Frade.

Ao longo dos últimos meses, Pedro Trés afirma ter recebido relatos de diversos banhistas e frequentadores da região sobre problemas de saúde após contato com a água. Um dos aspectos mais graves do caso, para ele, foram as informações da prefeitura indicando condições adequadas para banho sem que houvesse segurança técnica suficiente sobre os dados utilizados.

O Tribunal de Contas elaborou uma matriz de responsabilidade com a indicação de agentes públicos e órgãos potencialmente envolvidos nas irregularidades apontadas pela fiscalização técnica. O grupo de trabalho coordenado pelo Ministério Público também deve continuar acompanhando os monitoramentos da qualidade da água e as medidas que vierem a ser adotadas pelos órgãos públicos envolvidos no caso.

Litoral capixaba

O Ministério Público Federal (MPF) solicitou informações a 14 municípios do litoral do Espírito Santo no âmbito de uma notícia de fato instaurada em março passado que apura a regularidade do controle da qualidade da água das praias capixabas. Vitória, Vila Velha, Serra, Guarapari e Fundão, na região metropolitana; Presidente Kennedy, Marataízes, Itapemirim, Piúma e Anchieta, no sul; e Aracruz, Linhares, São Mateus e Conceição da Barra, no norte, foram envolvidos no procedimento, que busca reunir dados técnicos sobre o sistema de monitoramento da balneabilidade.

O Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) também foi acionado para apresentar dados técnicos sobre os episódios recentes de manchas na baía de Vitória e encaminhar os boletins de balneabilidade dos últimos seis meses.

O MPF afirma que o objetivo da investigação é garantir que o monitoramento da balneabilidade deixe de ser apenas um procedimento burocrático e passe a funcionar como um instrumento efetivo de proteção à saúde pública.

Desde 2016, a gestão do então governador Renato Casagrande (PSB) transferiu integralmente aos municípios a responsabilidade pelo monitoramento da balneabilidade e se tornou o único estado brasileiro a adotar esse formato de descentralização total. Dados apresentados em sessão da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa apontam que 43% dos municípios litorâneos não mantêm continuidade no monitoramento, enquanto 29% cumprem apenas parcialmente as exigências estabelecidas pelo Conama.

Em 2025, cidades como Presidente Kennedy, Anchieta, Piúma e Itapemirim, no sul do Estado; Fundão, na região metropolitana; e Conceição da Barra, no norte, não disponibilizaram informações atualizadas sobre balneabilidade. Além disso, as coletas não seguem um padrão fixo de periodicidade e metodologia, o que comprometeria a comparabilidade e a confiabilidade dos dados. Diante do cenário, o colegiado defende a elaboração de uma legislação estadual que estabeleça critérios unificados para coleta, análise e publicidade das informações sobre qualidade da água.

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