terça-feira, abril 28, 2026
26.9 C
Vitória
terça-feira, abril 28, 2026
terça-feira, abril 28, 2026

Leia Também:

Estado registrou 4,2 mil atingidos por conflitos no campo em 2025

Ocorrências se concentram nos mesmos territórios, com poluidoras também já conhecidas

O Espírito Santo registrou 4,2 mil pessoas atingidas por 11 conflitos no campo em 2025, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra. O número representa uma queda em relação a 2024, quando 5,6 mil pessoas foram afetadas em 32 ocorrências, mas os casos se concentraram nos mesmos territórios, indicando uma dinâmica marcada pela persistência das disputas em áreas específicas, especialmente no norte capixaba, onde comunidades tradicionais convivem com pressões históricas de empreendimentos agroindustriais e de mineração sobre seus territórios.

Nos conflitos por terra, foram cinco ocorrências, envolvendo mais de mil famílias, com destaque para a ocupação de mil mulheres sem terra na fazenda da Suzano (ex-Aracruz Celulose e ex-Fibria), localizada em Aracruz, norte do Estado. O grupo reivindicava a destinação de 22 terras em conflito que a empresa, em conjunto com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), se comprometeu a destinar para reforma agrária ainda em 2011. O acordo foi resultado de denúncias sobre os impactos negativos da monocultura de eucalipto na região.

MST

Outro conflito que se estendeu entre os dois últimos anos foi registrado nas comunidades quilombolas de Córrego do Alexandre e Angelim I, em Conceição da Barra, na região tradicional do Sapê do Norte. A área já havia sido alvo de registro em outubro de 2024 e voltou a aparecer no levantamento em fevereiro e outubro de 2025, indicando a continuidade da disputa no território ao longo do tempo.

Produtores rurais da comunidade relatam que a atividade agrícola tem sido inviabilizada por uma série de violações associadas à atuação da empresa Suzano, que mantém extensas áreas de monocultura de eucalipto na região. Entre os episódios relatados está o corte de cercas instaladas para proteger plantações, além da destruição de estruturas de apoio utilizadas nas colheitas. Moradores também denunciam formas de pressão, como o monitoramento por drones e intervenções em áreas produtivas, o que intensifica o clima de tensão.

O conflito ocorre em uma região onde territórios quilombolas foram espremidos por plantações de eucalipto da empresa, que adquiriu terras devolutas tomadas de forma fraudulenta pela Aracruz Celulose durante a ditadura militar, como foi comprovado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Aracruz Celulose, de 2002. Em 2024, haviam sido registrados 14 conflitos por terra, com 896 famílias envolvidas, além de ocupações e acampamentos distribuídos por diferentes municípios.

ocupacao_aracruz_eucaliptal_suzano_encerramento_1_comunicacao_mst_es.jpg
Divulgação

Nos casos de trabalho escravo rural, também houve redução no número de registros, que passaram de seis em 2024 para quatro em 2025, com queda no número de trabalhadores resgatados, de 83 para 35. Ainda assim, as ocorrências continuam presentes em municípios como Linhares, Sooretama, Rio Bananal e Vila Valério, no norte e noroeste do Estado, em atividades agrícolas de cultivo de café e cacau.

Os conflitos pela água seguiram a mesma tendência de redução numérica, passando de 12 ocorrências em 2024 para duas em 2025, com diminuição no número de famílias atingidas, de 495 para 34. No entanto, os registros mais recentes mostram que os casos continuam associados a impactos ambientais, como poluição e contaminação, atingindo comunidades específicas, como no manguezal de Vila Cajueiro, em Cariacica, e no território quilombola Morro da Onça, entre Conceição da Barra e São Mateus, no Sapê do Norte.

Além da persistência territorial, os próprios agentes causadores dos conflitos também se repetem ao longo dos anos. Um dos principais exemplos é o crime socioambiental provocado pelas empresas Samarco, Vale e BHP, cujo impacto sobre o litoral capixaba ainda produz efeitos diretos. Em 2016, uma decisão do juiz Welington Lopes da Silva, da Vara de Linhares, posteriormente confirmada em 2020, proibiu a pesca na faixa entre Barra do Riacho, em Aracruz, e Degredo/Ipiranguinha, em Linhares, até a profundidade de 20 metros, em razão da contaminação associada ao rompimento da barragem de Fundão.

Mesmo após uma década do crime, pescadores continuam a relatar impactos na fauna marinha e denunciar o número de peixes encontrados com tumores e outras anomalias, o que reforça a percepção de que os efeitos da contaminação persistem no cotidiano das comunidades e seguem alimentando os conflitos pelo uso e acesso aos recursos naturais.

O levantamento também mostrou que a expansão de empreendimentos logísticos atingiu o manguezal de Vila Cajueiro, onde intervenções para implantação de pátios de estocagem e obras de infraestrutura afetaram áreas sensíveis às margens do Rio Santa Maria da Vitória, com registro de aterros, supressão de vegetação e alterações nos canais naturais.

Moradores e pescadores denunciaram que as alterações no ecossistema prejudicam a reprodução de espécies como caranguejos e comprometem a pesca artesanal. As intervenções motivaram embargo por parte do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), após a identificação de impactos também sobre sítios arqueológicos na área.

Breno Silva

Assim como no restante do País, os conflitos no Estado estão associados à atuação de grandes proprietários, empresas e empreendimentos econômicos, além da presença do Estado como mediador ou agente indireto. Os principais atingidos continuam sendo comunidades tradicionais, trabalhadores sem terra e pequenos produtores, que dependem diretamente da terra e dos recursos naturais, e são protagonistas de ações de proteção ambiental e defesa dos territórios frente a atividades predatórias, aponta a Comissão Pastoral da Terra.

O relatório aponta que muitas dessas mobilizações ocorrem em resposta à degradação de recursos naturais, como a contaminação de rios, o avanço do desmatamento, a expansão de monoculturas e a instalação de grandes empreendimentos. Nesse contexto, comunidades tradicionais atuam como barreiras à destruição ambiental, denunciando violações, impedindo o avanço de atividades ilegais ou predatórias e pressionando por medidas de reparação.

No cenário nacional, a redução no número de conflitos segue a mesma tendência observada no Espírito Santo, mas com contradições ainda mais evidentes. Dados da Comissão Pastoral da Terra apontam que o Brasil registrou 1,5 mil conflitos no campo em 2025, contra 2,2 mil em 2024, indicando uma queda significativa no volume de ocorrências. Apesar disso, a diminuição dos registros não foi acompanhada por uma redução da violência. No mesmo período, o número de assassinatos no campo dobrou, passando de 13 para 26 mortes, evidenciando que os conflitos seguem ativos e, em muitos casos, mais graves.

Mais Lidas