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Abandono e risco sanitário: o que sobrou do Hospital Colônia Pedro Fontes

Moradores e antigos internos expõem o descaso com a história de quem foi injustamente rejeitado pela sociedade

“É como uma pessoa entre a vida e a morte”. A descrição, feita por Clélia Alves da Silva, resume o sentimento de quem voltou a caminhar pelos pavilhões do antigo Hospital Colônia Pedro Fontes, em Cariacica, quase quatro décadas depois de ter sido internada para tratar hanseníase. Onde recebeu atendimento que a ajudou a salvar a vida, a ex-interna encontra portas arrancadas, janelas destruídas, dejetos de animais, livre circulação de crianças e um patrimônio histórico entregue ao abandono.

Clélia se emociona ao recordar a própria história, em visita ao pavilhão onde ficou internada compulsoriamente por seis meses. Foto: Guilherme Alves

Clélia luta para impedir que também seja apagada a memória das pessoas que viveram o isolamento compulsório imposto aos pacientes de hanseníase durante grande parte do século passado. “O que a gente quer é preservar esse patrimônio. Aquilo não é só um prédio velho. Aquilo conta a história de quem sofreu, de quem perdeu a família, de quem foi rejeitado pela sociedade. A gente quer que as pessoas conheçam essa história para que ela nunca mais se repita”, afirma.

Fundado na década de 1930, o Hospital Colônia Pedro Fontes foi referência no tratamento da hanseníase no Espírito Santo e integrou a política nacional de isolamento compulsório de pessoas diagnosticadas com a doença. Parte do complexo permanece ocupado atualmente, enquanto antigos pavilhões se encontram deteriorados e são alvo de reivindicações de ex-pacientes e pesquisadores para que recebam uma destinação voltada à preservação da memória.

Durante uma visita recente ao local, Clélia afirma ter encontrado, além da deterioração das edificações, materiais abandonados no interior dos antigos prédios. “Eu fiquei muito triste. Cheguei lá e pensei: ‘Cadê o Governo?’. As portas estão abertas, qualquer criança entra. Aquilo virou casa de morcego. Tem dejetos de animais por todo lado. A gente encontrou luvas, seringas jogadas. Tudo isso representa perigo para quem entra ali, principalmente para as crianças, porque não existe controle nenhum sobre quem entra ou sai daquele espaço. Era um lugar que tinha jardim, era tudo organizado, e hoje está completamente abandonado”, relata.

Edificações, móveis e objetos antigos deteriorados performam os riscos do atual estado do hospital, todos relacionados ao abandono físico do complexo, incrementados pela presença de dejetos de morcegos e aves, resíduos, possíveis materiais perfurocortantes e animais sinantrópicos e estruturas apodrecidas.

Guilherme Alves

Clélia chegou ao Pedro Fontes em 1986, depois de passar dias internada com febre alta e lesões provocadas pela forma virchowiana da hanseníase. Ela conta que não fazia ideia da gravidade da doença até ser encaminhada ao hospital especializado. “Quando eu entrei naquele corredor e vi aquele monte de gente mutilada, sem mão, sem pé, eu pensei: ‘Meu Deus, acho que eu vou morrer aqui’. Eu chorava o tempo todo. Depois fui entendendo que aquele lugar existia para tentar salvar a nossa vida”, recorda. Ela permaneceu cerca de um ano vinculada ao hospital, parte desse período em isolamento. Mãe solo, ficou meses sem poder conviver com o filho e afirma que sofreu discriminação ao descobrir o diagnóstico.

“Minha mãe foi avisada que, se eu voltasse para casa, tinham pessoas dizendo que iam colocar fogo comigo lá dentro. Eu fiquei sem ver meu filho crescer. Quem sabe o que era aquilo é quem esteve lá dentro. A gente era rejeitado. Não recebia visita. Era como viver preso”, conta. Apesar das lembranças dolorosas, Clélia faz questão de destacar que encontrou acolhimento entre profissionais e pacientes da colônia. “Os médicos colocavam a mão na gente, examinavam sem medo, sem nojo. Muitos pacientes cuidavam dos próprios pacientes. Muitas vidas foram salvas ali. Eu sou prova disso. Hoje estou aqui porque aquele hospital existiu”, afirma.

Por reconhecer a importância histórica do espaço, ela defende sua preservação. “Aquilo não pertence a Governo nenhum. Pertence à nossa história. Ali ficaram pessoas que perderam a saúde, perderam partes do corpo, perderam a convivência com a família. Não pode simplesmente deixar tudo acabar desse jeito”, diz. A ex-paciente defende que o complexo poderia receber uma destinação pública capaz de preservar essa memória e, ao mesmo tempo, atender à população. “Tem espaço para fazer um centro de memória, um lugar de acolhimento, projetos sociais, tanta coisa. O que não pode é continuar abandonado. O espaço está lá, enorme, bonito, mas sendo destruído pela falta de cuidado”, afirma.

Clélia também critica o processo de descaracterização da antiga colônia e cobra maior compromisso do poder público com o patrimônio. “Vão tirando um pedaço daqui, outro dali, e o restante fica largado. Quem chega lá hoje não imagina quantas vidas passaram por aqueles corredores. A gente não está brigando por um prédio. Está brigando pela nossa história. Enquanto muita gente estava vivendo normalmente aqui fora, muita gente estava lá dentro perdendo a mão, perdendo o pé, perdendo o nariz, perdendo a família. As pessoas tinham preconceito, porque não conheciam a nossa história. O que a gente pede hoje é simples: que preservem esse patrimônio e deem uma destinação para ele. A memória de quem passou por ali merece respeito”, conclui.

Desmembramento

Segundo familiares e integrantes do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), desde a publicação do Decreto nº 029, de 5 de fevereiro de 2026, que autorizou o desmembramento de parte da área para alienação, não houve comunicação pública da Prefeitura de Cariacica sobre estudos de impacto, delimitação das áreas protegidas ou medidas de preservação do sítio histórico e arqueológico ligado ao antigo hospital-colônia.

O documento aprovou o desmembramento de um terreno urbano de propriedade do município no bairro Padre Mathias, dividindo a área em duas partes: a “Gleba A – Remanescente” e a “Área B – Desmembramento”, esta última com 70,1 mil metros quadrados destinada à empresa Innova Park Organização Logística Ltda, para implantação de um polo industrial. A ausência de informações oficiais sobre os impactos da medida ampliou a preocupação de famílias que já denunciavam abandono e violações de direitos no cemitério do complexo. Eles denunciam que continuam tendo direitos violados pela falta de preservação do local, ausência de identificação das covas e movimentação de ossadas sem informações claras.

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